Dados mais recentes do relatório “Violência Armada e Racismo: o papel da arma de fogo na desigualdade racial – 2025”, produzido pelo Instituto Sou da Paz, revelam que Alagoas e sua capital, Maceió, concentram uma das maiores desigualdade racial na letalidade armada do país. As taxas analisadas se referem principalmente ao ano de 2023, conforme…
Dados mais recentes do relatório “Violência Armada e Racismo: o papel da arma de fogo na desigualdade racial – 2025”, produzido pelo Instituto Sou da Paz, revelam que Alagoas e sua capital, Maceió, concentram uma das maiores desigualdade racial na letalidade armada do país. As taxas analisadas se referem principalmente ao ano de 2023, conforme informações oficiais do SIM/DATASUS e do IBGE.
Segundo o estudo, em 2023, Maceió registrou uma taxa de homicídios de homens negros 13,9 vezes maior do que a observada entre homens não negros — o maior desnível entre as capitais brasileiras.
Alagoas se destaca por índices alarmantes
O Nordeste concentrou quase metade dos homicídios de homens por arma de fogo em 2023, alcançando a maior taxa do país: 55,8 mortes por 100 mil homens, sendo 90% das vítimas negras. O Norte aparece na sequência (45,75 por 100 mil), enquanto o Sudeste apresenta a menor taxa (15,3).
Entre os estados, os maiores números absolutos de homicídios armados estão na Bahia, em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Porém, ao observar as taxas por 100 mil habitantes, o ranking muda:
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Amapá – 111,5
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Bahia – 73,2
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Pernambuco – 62,0
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Alagoas – 58,0
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Ceará – 52,8
Entre as capitais com piores índices de homicídios por arma de fogo em 2023 Maceió aparece em quarto lugar:
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Macapá – 123,5
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Salvador – 107,5
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Recife – 74,4
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Maceió – 72,9
Em todas as capitais brasileiras, homens negros apresentam taxas de homicídio superiores às de homens não negros.
Cidades como São Paulo (3,0), Brasília (11,2) e Florianópolis (11,3) registram os menores índices do país, evidenciando contrastes regionais profundos.
“A desigualdade racial na vitimização por violência armada se reproduz em todas as regiões. Estados da região Nordeste, onde a desigualdade racial na vitimização é mais acentuada, prevalecem entre as unidades da federação com as maiores taxas de homicídios masculinos com arma de fogo desde 2012”, analisa Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz.
Ruas e espaços públicos são o epicentro das mortes
Ao contrário dos feminicídios, a violência armada contra homens ocorre majoritariamente em espaços públicos. Em 2023:
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49% dos homicídios ocorreram em ruas ou estradas
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11,6% ocorreram em residências
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26% não tiveram local especificado
Entre idosos, a violência ocorre mais dentro de casa. Entre jovens, predomina nas vias públicas — reforçando o caráter urbano e visível da violência armada.
Violência armada não letal
Além dos homicídios registrados em 2023, a pesquisa analisa dados de violência armada não fatal a partir das notificações do Sinan/DATASUS.
Entre 2012 e 2024, houve 58.549 notificações de violência armada não letal contra homens. Após queda até 2021, as notificações aumentaram 59% em três anos, chegando a 5.605 em 2024.
No ano de 2024, o Nordeste apresentou a maior desigualdade racial nesse tipo de violência: a taxa de notificações de violência armada não letal foi 3,1 vezes maior para homens negros do que para homens não negros.
Também em 2024, os registros mostram que 73% das vítimas de violência armada não letal atendidas no país eram homens negros, repetindo o padrão observado há anos na letalidade.
Os dados de 2024 indicam ainda que a rua foi o principal local das agressões não letais e que a autoria permaneceu majoritariamente desconhecida. Na faixa etária de 20 a 29 anos, as notificações envolvendo intervenção policial tiveram maior peso.
Panorama nacional
A publicação do Instituto Sou da Paz reforça que, mesmo com quedas pontuais de homicídios nos últimos anos, o padrão estrutural da violência armada permanece: homens negros morrem três vezes mais que homens não negros no país, tendência reafirmada nos dados mais recentes de 2023.
Segundo o relatório, as regiões Nordeste e Norte seguem liderando as taxas estaduais mais elevadas de violência armada letal, além de registrar as maiores diferenças raciais.
A pesquisa incorpora também análises de especialistas que abordam como elementos de raça, classe social, masculinidades e território influenciam os indicadores apresentados. Esses textos destacam que os dados recentes (2023 e 2024) revelam uma continuidade histórica da vitimização de homens negros no Brasil através da: manutenção da desproporção racial; vitimização concentrada em homens jovens; predominância de ocorrências na via pública; e relação direta entre desigualdade socioeconômica e risco de morte.
“A desigualdade racial na vitimização se reproduz em todas as regiões”, afirma Carolina Ricardo. Para ela, a redução dos homicídios exige políticas que enfrentem simultaneamente racismo, desigualdade de gênero e desigualdade de classe, além do controle mais rígido da circulação de armas — tanto no mercado legal quanto na repressão ao tráfico.



