sexta-feira, julho 10, 2026
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‘Fechou o valor do Pres Valdemar?’, ‘Pode colocar o máximo que der’: leia diálogos que basearam bloqueio de R$ 119 milhões de Valdemar Costa Neto


Valdemar da Costa Neto | Marcello Casal Jr

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de bens do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, até o valor de R$ 119,2 milhões. O pedido partiu da Polícia Federal. A suspeita é de que Valdemar, que não tem mandato, controlava a indicação de emendas parlamentares dentro da Câmara dos Deputados, com…

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de bens do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, até o valor de R$ 119,2 milhões.

O pedido partiu da Polícia Federal. A suspeita é de que Valdemar, que não tem mandato, controlava a indicação de emendas parlamentares dentro da Câmara dos Deputados, com a ajuda de três servidores da Casa.

A base da investigação são diálogos encontrados no celular de uma ex-servidora da Câmara. Neles, de acordo com a PF, o presidente do PL aparece decidindo valores, escolhendo municípios e trocando destinos de emendas.

“Marquei com o Valdemar amanhã 10:30”, escreve um assessor em uma das mensagens. “Acho que ele vai jogar no turismo os 24. Pode ser?”

Os “24” são R$ 24 milhões em emendas parlamentares, segundo a PF.

Por lei, só parlamentares podem indicar emendas. Valdemar é ex-deputado e não tem prerrogativa para destinar recursos do orçamento.

A origem da investigação

 

Presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto — Foto: Beto Barata/PL/DivulgaçãoPresidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto — Foto: Beto Barata/PL/Divulgação

Além do bloqueio, Dino mandou suspender, imediatamente, todos os pagamentos das emendas sob suspeita. São pelo menos 21 emendas, empenhadas ou pagas, num total de R$ 119.216.703,15 — o valor que a PF calcula ter sido desviado.

A investigação é um desdobramento da Operação Transparência, deflagrada em dezembro de 2025. Na ocasião, a PF apreendeu o celular de Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, apontada como peça-chave na distribuição das emendas do chamado “orçamento secreto”.

Mariângela é ex-assessora do deputado federal e ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL).

Conhecida como Tuca, Mariângela trabalhou no gabinete de Lira entre março de 2021 e meados de 2025, quando passou a atuar na liderança do Progressistas (PP) na Casa, o partido de Lira. Em dezembro de 2025, ela tinha remuneração bruta de R$ 23,7 mil em um cargo de natureza especial no partido.

Mariângela Fialek, ex-assessora do deputado federal e ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) — Foto: Reprodução/LinkedinMariângela Fialek, ex-assessora do deputado federal e ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) — Foto: Reprodução/Linkedin

 

Foi nesse celular que os diálogos apareceram.

As conversas envolvem três servidores da Câmara: a própria Mariângela Fialek, chamada de “Tuca”; Nara Benedetti Nicolau Brum, lotada na liderança do PL; e Garigham Amarante Pinto, advogado com cargo especial na mesma liderança.

Em uma das trocas de mensagens, Fialek pergunta a Nara: “Vc tem a planilha Codevasf.? Passou pra ele?”

A resposta de Nara faz referência direta ao presidente do PL: “ok. As do valdemar já estamos terminando de cadastrar”.

Para os investigadores, Nara era quem viabilizava tecnicamente as indicações: encaminhava planilhas, explicava limites regimentais e pedia ajustes.

Nas mensagens dela, as indicações aparecem marcadas como “do Valdemar” ou “do VCN” — abreviação que, segundo a investigação, se refere de forma consistente a Valdemar Costa Neto.

Garigham tinha outro papel: era o contato direto com Valdemar, descrito pela investigação como um emissário do presidente do partido.

Em 25 de agosto de 2025, ele avisa Fialek: “Marquei com o Valdemar amanhã 10:30”. E emenda: “Acho que ele vai jogar no turismo os 24. Pode ser?”

 

Fialek pede calma. Diz que vai passar “quanto”. Garigham insiste: “Pode colocar o máximo que der. Ele tá querendo Turismos”.

No dia seguinte, ele cobra uma resposta: “Fechou o valor do Pres Valdemar?”

Fialek responde: “Se puder trocar tudo turismo ótimo”.

Garigham fecha: “24 milhoes tá bom”.

Horas depois, o assessor envia nova mensagem: “Voltei do VCN”. Em seguida, ele encaminha o que a PF descreve como uma aparente lista com municípios, CNPJs e a palavra “Turismo” ao lado de boa parte dos nomes.

Segundo a PF, é possível que essa lista esteja relacionada aos R$ 24 milhões mencionados por Garigham.

Em 28 de agosto, segundo o documento, Nara envia uma planilha intitulada “Alteração em Turismo – VCN”.

Fialek responde: “Já tenho”.

Nara explica: “Não, o Valdemar pediu pra trocar algumas das indicações que ele fez ontem em turismo, porque os municípios não iriam conseguir executar”.

 

Segundo a investigação, Valdemar não apenas indicava as emendas: revisava as indicações, trocava municípios e ajustava valores.

Segundo a PF, Nara chegou a relatar, nas conversas, que Valdemar não aceitaria mudanças nos destinos definidos, mesmo diante de obstáculos técnicos.

O registro em nome de deputados

Como Valdemar não tem mandato, as emendas não podiam ser registradas em nome dele. Segundo a PF, a solução encontrada foi registrar deputados federais como “solicitantes” das indicações.

Para os investigadores, o registro formal em nome de parlamentares servia para ocultar o verdadeiro autor das indicações.

A PF cruzou as planilhas do celular de Fialek com o Portal da Transparência e encontrou pelo menos 21 emendas atribuídas a Valdemar que foram empenhadas ou pagas, num total de R$ 119 milhões. Desse valor, R$ 104 milhões já foram pagos.

Segundo a PF, as indicações atribuídas a Valdemar nas mensagens estavam associadas a áreas como saúde, turismo e esporte, e a municípios localizados, em sua maioria, no estado de São Paulo.

Na decisão, Dino menciona a “espantosa ascendência” que os servidores atribuíam a Valdemar — em contraste com a “ausência de título jurídico” que permitisse ao ex-deputado dispor do orçamento.

O ministro afirma ainda que os espaços permitidos às emendas parlamentares “não degradam o Erário à condição de patrimônio privado”, passível de divisão em cotas entre partidos e seus dirigentes.

A suspeita principal é de peculato-desvio: quando servidores públicos dão ao dinheiro público um destino diferente do previsto em lei, em benefício próprio ou de terceiros. A pena vai de 2 a 12 anos de prisão. Também se investiga associação criminosa.

A PGR se manifestou contra as medidas cautelares, mas defendeu a continuidade das investigações e o rastreamento dos valores. Dino acolheu os pedidos da PF em parte.

O ministro também determinou que a Câmara entregue, em 10 dias, todos os documentos internos de tramitação das emendas identificadas pela PF, de modo individualizado e organizado por emenda.

A decisão não registra manifestação das defesas de Valdemar Costa Neto e dos servidores citados. A eventual participação de deputados federais no esquema, por ação ou omissão, ainda será apurada, segundo a investigação.





Fonte: Alagoas 24h

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