quarta-feira, julho 29, 2026
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Clube de futebol é despejado e tem sede demolida para construção de parque


Desocupação do Cruz — Foto: Leonardo Zvarick/g1

Começou nesta quarta-feira (29) a desocupação do Grêmio Esportivo Cruz da Esperança, clube de futebol de várzea instalado há quase cinco décadas em uma área pública no Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo. O espaço foi esvaziado durante a manhã por funcionários da prefeitura. Horas depois, retroescavadeiras iniciaram a demolição da sede onde…

Começou nesta quarta-feira (29) a desocupação do Grêmio Esportivo Cruz da Esperança, clube de futebol de várzea instalado há quase cinco décadas em uma área pública no Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo. O espaço foi esvaziado durante a manhã por funcionários da prefeitura. Horas depois, retroescavadeiras iniciaram a demolição da sede onde a agremiação mantinha suas atividades, incluindo o popular Samba do Cruz.

“O sentimento é como o de perder uma família. Meus meninos foram todos criados aqui, já são quatro gerações”, lamentou Antônio de Jesus Marcos, de 71 anos, atual presidente do Cruz e membro do clube desde 1979. “Tudo aqui sempre foi feito de coração para a comunidade, fomos nós que construímos tudo”, disse ele enquanto acompanhava, ao lado da mulher e do filho, a retirada das dezenas de troféus conquistados pelo time em campeonatos amadores de futebol.

O campo a sede do Cruz da Esperança ocupavam uma pequena parcela do terreno de 385 mil m² onde será construído o futuro Parque Campo de Marte, ao lado do aeroporto de mesmo nome. Antigo reduto do futebol de várzea, o local se tornou alvo de disputa após ser concedido pela prefeitura à iniciativa privada para a implementação do complexo de lazer.

Segundo a Prefeitura de São Paulo, a permanência do Cruz da Esperança impedia a transferência da área ao Consórcio Cântaro, que no ano passado assinou um contrato de concessão de 35 anos com o município para construir e explorar comercialmente o futuro equipamento público.

A reintegração de posse foi autorizada pela Justiça em março. Ao g1, a gestão Ricardo Nunes (MDB) disse que enquanto os outros clubes que funcionavam no local entraram em acordo para deixar o terreno, o Cruz da Esperança “abandonou unilateralmente as tratativas e descumpriu todas as notificações para a desocupação voluntária da área”.

O acordo proposto pela concessionária prevê que os antigos ocupantes possam utilizar os campos de futebol que serão construídos no parque. O Cruz recusou a oferta por entender que o modelo colocaria em risco as atividades culturais realizadas no local, como o samba que acontece aos fins de semana e ajuda a sustentar financeiramente a agremiação.

O último evento aconteceu na véspera da reintegração e reuniu cerca de três mil pessoas, que atravessaram a madrugada cantando em protesto contra o despejo. “O público ficou até 7h da manhã manifestando sua indignação, um ato de resistência pacífica”, relatou Fábio Henrique Januário, que organiza a roda de samba há cerca de 15 anos. Ele define o Cruz como “um quilombo onde todos são acolhidos sem preconceito, com o ideal de ser feliz”.

O espaço também se tornou referência por acolher durante décadas diferentes manifestações da cultura negra, como a capoeira e o candomblé.

A mãe de santo iyá Keize Oliveira manteve por 12 anos um terreiro no local, onde diz ter ajudado incontáveis pessoas a se conectarem ao sagrado. “Estou com o coração sangrando, não acreditamos que chegaria a esse ponto”, disse ela, momentos antes de se despedir do local de culto.

No final da manhã, parlamentares de oposição tentaram negociar o adiamento das demolições com o secretário municipal de Justiça, André Lemos Jorge, para que os altares religiosos sejam retirados seguindo os rituais tradicionais do candomblé. Não houve acordo, e as máquinas iniciaram a demolição pouco depois do meio dia.

O presidente do Cruz, Antônio de Jesus Marcos, conhecido como Tio Toninho, afirma que ainda vê esperança em uma negociação com a prefeitura, para que o clube possa manter suas atividades no Campo de Marte ou em outro endereço.

Os pertences do Cruz encheram um caminhão e serão levados para um galpão próximo enquanto o futuro do clube não é definido.





Fonte: Alagoas 24h

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