Quando decidiu parar de tomar anticoncepcional, Thaís Campos Varanda, 28, do Rio de Janeiro (RJ) tinha um medo: ela achava que talvez não pudesse engravidar. Ela e o marido até planejaram a gestação, mas não imaginavam que, quando acontecesse, viria em dose dupla. E menos ainda que aumentaria para dose tripla, logo em seguida. ACOMPANHE…
Quando decidiu parar de tomar anticoncepcional, Thaís Campos Varanda, 28, do Rio de Janeiro (RJ) tinha um medo: ela achava que talvez não pudesse engravidar. Ela e o marido até planejaram a gestação, mas não imaginavam que, quando acontecesse, viria em dose dupla. E menos ainda que aumentaria para dose tripla, logo em seguida.
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Thaís, que trabalha como contadora, tomou anticoncepcional durante 13 anos, até que, depois de conversar com o marido e se programar para ser mãe, interrompeu o uso do medicamento, ainda com o pé atrás. “Desde criança eu sonhava em ser mãe”, conta. “Mas eu tinha medo de parar o anticoncepcional e descobrir que realmente não podia engravidar. Por esse medo, fui adiando”, acrescenta.
Em poucos meses, ela descobriu que o receio não tinha fundamento: ela estava grávida e eram gêmeos! Embora haja histórico de múltiplos tanto na família de Thaís, quanto na do marido, eles mal conseguiam acreditar no que estava acontecendo. Um dia antes de saber que teriam dois bebês, o marido chegou a cogitar e perguntar a ela: “Já pensou se fossem gêmeos?”.
Segundo ela, ambos concordaram que gostariam, mas não estavam preparados para o que viria a seguir. “Eu sempre quis ter filhos gêmeos, achava lindo, imaginava os dois vestidos iguais. Mas, quando engravidei, não estava pensando nisso”, lembra. Na ultrassonografia, veio a confirmação.
Mas havia algo a mais. O exame mostrou uma placenta com dois embriões. Ao lado, porém, havia uma segunda estrutura gestacional, muito pequena. “A médica ficou insistindo nela, mas não tinha sinais vitais, não tinha feto, não tinha nada. Ela explicou que poderia ser uma gestação que não evoluiu e que meu corpo provavelmente absorveria aquilo, sem atrapalhar a gestação gemelar”, relata.
Thaís foi para casa, já chocada, acreditando que esperava dois bebês. Na segunda ultrassonografia, porém, a história mudou. “Esse embrião já estava bem grandinho. Na verdade, estava maior do que um dos gêmeos. A reação foi de choque. Eu fiquei: ‘Meu Deus, e agora?’. Faltou ar”, lembra.
A própria médica anunciou a surpresa. “Ela falou: ‘Tem muita gente aqui, hein?’. Eu continuei tranquila, porque achei que estivesse falando dos gêmeos. Aí ela foi mostrando: ‘Esse daqui é um, esse daqui é outro… e esse daqui é outro bebê’”, conta. Foi quando o casal entendeu que havia três bebês. “Meu Deus, é sério isso? Aí ela mostrou tudo direitinho”, diz Thaís.
O fenômeno descrito por Thaís é raro, mas acontece e tem até nome. Na medicina, é conhecido como superfetação: uma nova ovulação, fecundação e implantação acontecem depois que uma gestação já começou.
Normalmente, a gravidez desencadeia mecanismos que impedem uma nova gestação: alterações hormonais bloqueiam a ovulação, o colo do útero dificulta a passagem dos espermatozoides e o ambiente uterino se modifica para sustentar a gestação já existente. Por isso, uma segunda concepção durante uma gravidez é considerada excepcional.
Nos casos de superfetação, os fetos têm idades gestacionais diferentes, embora normalmente acabem nascendo juntos. A diferença entre eles costuma ser de algumas semanas.
Mas nem toda gestação com bebês de tamanhos ou idades gestacionais diferentes é uma superfetação. Diferenças de crescimento, problemas placentários e até erros na estimativa da idade gestacional podem produzir imagens semelhantes.
Quando a notícia chegou à família, ninguém acreditou de primeira. “Ficaram todos em choque, ninguém acreditava. Mas foi uma festa”, conta Thaís.
Ela decidiu compartilhar a experiência nas redes sociais porque, durante a gestação, procurava informações e encontrava pouco conteúdo sobre o assunto. “Eu pesquisava muito e não achava muita gente falando. Eu não sabia que podia engravidar já estando grávida. Quando aconteceu comigo, descobri. Eu não encontrava muitas pessoas falando sobre gestação trigemelar e havia detalhes que eu queria saber e não conseguia”, explica.
“Também queria guardar tudo e atualizar meus familiares, porque tenho uma família grande, tanto da minha parte quanto do meu marido. Mas não esperava esse alcance”, acrescenta.
Entre os comentários, uma coisa chamou especialmente sua atenção: a quantidade de pessoas que também desconhecia a possibilidade. “Muita gente dizia que, assim como eu, não sabia que podia engravidar já estando grávida. Isso me chamou muita atenção. Eu me senti pertencente, porque percebi que não era a única que não sabia”, revela.
A vida com três bebês
Depois de tanta emoção e uma gravidez repleta de surpresas, Thaís deu à luz três meninas: Sol, Lua e Luz, que acabaram de completar 4 meses. Hoje, a família tem uma rotina cheia e para lá de intensa. “É bem cansativo, bem desafiador. Graças a Deus tenho uma rede de apoio. Minha mãe está comigo e meu marido é um pai sensacional, me ajuda demais”, afirma.
Mesmo assim, há dias em que tudo acontece ao mesmo tempo. “Às vezes, fico eu e minha mãe em casa com as meninas e conseguimos almoçar só às 3 ou 4 da tarde. Principalmente quando está perto de elas fazerem mais um mês, porque mudam bastante. O salto do desenvolvimento vem forte e a rotina fica mais bagunçada”, compartilha.
Para ela, o maior desafio é justamente a combinação de privação de sono e cansaço. Ainda assim, o sentimento de ser mãe das três supera as dificuldades. “É muito maravilhoso. Eu amo ser mãe das três. É algo que não consigo explicar”, define.
Apesar de terem nascido na mesma gestação, Thaís já percebe diferenças marcantes entre as meninas. “O amor é fora do comum. É algo surreal, maravilhoso, mágico. São três pessoinhas, três nenenzinhos que saíram de dentro de mim, mas que são totalmente individuais”, constata.
Ela se surpreende ao observar a personalidade de cada uma. “Cada uma é de um jeitinho, cada uma tem uma personalidade diferente. Eu fico: ‘Meu Deus!’”, diz, cheia de orgulho.
Depois da experiência impactante, ela garante que a família não pretende aumentar. “Não pretendo ter mais filhos. Sempre falo que Deus sabe de todas as coisas, porque ele queria que eu fosse mãe dessas três meninas e mandou todas de uma vez”, afirma. Para Thaís, foi a única maneira de realizar o sonho de ter uma família grande. “Se eu tivesse uma gestação só de um bebê, não teria outra. Então ele sabia que, para eu ser mãe das três, tinha que ser assim”, completa.
Superfetação
Engravidar uma segunda vez já estando grávida pode parecer imposível, mas não é! Apesar de muito rara, essa é uma possibilidade, conhecida como superfetação, ou seja, uma mulher pode, sim, ter a experiência de uma gestação em dose dupla a partir de duas concepções diferentes, separadas por até algumas semanas.
A superfetação acontece quando uma mulher já grávida continua a ovular e tem relações sexuais desprotegidas nesse intervalo. A segunda concepção pode acontecer entre 1 e 4 semanas depois da primeira, mas de qualquer forma os bebês devem nascer ao mesmo tempo, assim como gêmeos.
Sérgio Podgaec, médico ginecologista e obstetra do Hospital Israelita Albert Einstein (SP), ressalta que a condição é raríssima. “Sequer existe um número para superfetação, porque se trata mais de uma possibilidade do que uma realidade. Nunca vi um caso desses em consultório e nunca ouvi falar de colegas, mas ainda é uma possibilidade”, explica. O “diagnóstico” da superfetação seria feito ao se constatar no ultrassom uma clara diferença de tamanho entre os bebês – supostamente gêmeos – com um embrião de 2 semanas e outro de 6, por exemplo. “Por mais folclórico que pareça, pode acontecer, até de pais diferentes”, afirma Sérgio.



