domingo, agosto 23, 2026
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Câncer de pulmão é descoberto em estágios já avançados em mais de 8 de cada 10 casos


Senado Federal

Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), com dados do Sistema Único de Saúde (SUS), mostra que 8 em cada 10 pacientes descobrem o câncer de pulmão nos estágios mais avançados. A doença é o tipo de câncer que mais mata no Brasil, são 31 mil mortes por ano. Ela avança quase sem dar…

Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), com dados do Sistema Único de Saúde (SUS), mostra que 8 em cada 10 pacientes descobrem o câncer de pulmão nos estágios mais avançados.

A doença é o tipo de câncer que mais mata no Brasil, são 31 mil mortes por ano. Ela avança quase sem dar sinais e quando o paciente finalmente descobre, quase sempre já é um caso grave.

Dados do Painel de Oncologia, que concentra dados do SUS, analisados pela SBCO, mostram que 87% dos pacientes recebem o diagnóstico quando a doença já está nos estágios três e quatro, considerados os mais avançados.

“Alguns pacientes chegam ao diagnóstico em um estado tão fragilizado que não conseguem fazer o tratamento. Isso acaba impactando na letalidade”, explica o cirurgião torácico Erlon Ávila Carvalho.

 

De acordo com especialistas ouvidos pelo g1, o cenário é esse por alguns motivos:

  1. A doença é silenciosa e avança sem que o paciente perceba os sintomas;
  2. O câncer de pulmão é um tipo mais agressivo de câncer.

 

➡️ Há ainda um outro fator agravante. No Brasil não há rastreamento para a doença no SUS, como há para outros tipos de câncer.

O Inca está à frente de um estudo para entender como aplicar isso ao país, mas especialistas apontam que, ainda que isso seja implementado, há desafios pelo perfil da doença.

O tabagismo segue sendo o principal responsável. Quem fuma tem até 30 vezes mais risco de morrer de câncer de pulmão do que quem nunca fumou, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

O que os dados mostram

 

estadiamento é a forma como a medicina classifica o quanto um câncer avançou pelo corpo. Vai do estágio 0, quando o tumor é muito inicial e está restrito a um pontinho do órgão, até o estágio 4 — que é o mais avançado. Para isso, é necessário exame.

De acordo com a análise da SBCO com os dados do SUS, entre 2020 e 2025 há 49 mil registros de estadiamento para câncer de pulmão. Entre os registros, a maior parte dos diagnósticos está nos estágios mais graves:

  • Estágio 0 (tumor muito inicial): 1.473 registros — 3,0%
  • Estágio 1 (tumor pequeno e localizado): 1.975 registros — 4,0%
  • Estágio 2 (tumor maior, mas ainda restrito à região): 2.499 registros — 5,1%
  • Estágio 3 (já invadiu estruturas ou linfonodos próximos): 11.704 registros — 23,8%
  • Estágio 4 (com metástase, espalhado para outras partes do corpo): 31.467 registros — 64,1%

 

Ou seja, somados os estágios mais graves (3 e 4) eles representam mais de 87% dos registros de estadiamento no SUS.

De acordo com os especialistas, essa é apenas uma parte da realidade, já que nem todos os pacientes são submetidos ao estadiamento, o que pode alterar a realidade dos dados. No entanto, os especialistas reforçam que o índice é sempre alto por quão silenciosa a doença pode ser.

“O que mais vemos é o paciente chegando com o diagnóstico grave e que nos dá poucas possibilidades de tratamento porque a doença já progrediu demais”, explica o cirurgião torácico Erlon Ávila Carvalho, que também é coordenador da comissão de tumores torácicos da SBCO.

 

Esse é um dos motivos, segundo o médico, para o câncer de pulmão ser hoje o câncer com a maior letalidade no país. De acordo com dados do Inca, são 31 mil mortes por ano no país.

A janela que se fecha antes do diagnóstico

 

O câncer de pulmão costuma ser assintomático nas fases iniciais. Um nódulo de dois centímetros, por exemplo, não causa nenhum sintoma perceptível. Assim, a doença passa pelos estágios 1, 2 e parte do 3 sem se manifestar — e é só perto do estágio 4 que os primeiros sinais costumam aparecer.

➡️ Quando aparecem, também enganam: tosse e falta de ar, os sintomas mais comuns, são facilmente confundidos com doenças pulmonares benignas, como a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), comum entre fumantes e ex-fumantes. É frequente o paciente atribuir o cansaço à idade ou ao sedentarismo, sem associá-lo à doença.

De acordo com o médico Erlon Carvalho, a doença, à medida que avança, libera substâncias inflamatórias no sangue que reduzem o apetite — o que leva à perda de peso e, geralmente, é esse emagrecimento que faz o paciente procurar ajuda médica. Nesse ponto, o tumor já está em estágio avançado.

De acordo com a SBCO, o melhor perfil de tratamento para o paciente é descobrir cedo e poder passar pela cirurgia para a retirada do tumor.

No entanto, segundo os dados do Inca, apenas 30% dos pacientes passaram pela cirurgia como tratamento de forma isolada no país de acordo com os dados mais recentes do Inca, que são de 2022.

Para que isso seja possível, é preciso que o tumor seja descoberto cedo para ser retirado com a área impactada pela doença.

“É muito triste porque o paciente perde a chance da janela de tratamento com a cirurgia, que oferece melhores chances, por não conseguir diagnosticar antes”, explica o médico oncologista Erlon Ávila Carvalho.

 

O exame indicado para o rastreio é a tomografia computadorizada de baixa dosagem, que usa menos radiação que uma tomografia convencional para detectar nódulos suspeitos antes que causem sintomas.

Até este ano, a indicação era restrita a fumantes ou ex-fumantes entre 50 e 80 anos, com carga tabágica — o equivalente ao consumo somado ao longo dos anos — superior a 20 maços-ano, e que tivessem parado de fumar há menos de 15 anos.

Agora, entidades médicas americanas de referência em pneumologia atualizaram a recomendação e retiraram esse critério de tempo desde a interrupção do hábito. Na prática, hoje são elegíveis para o exame todos os fumantes e ex-fumantes entre 50 e 80 anos com carga tabágica igual ou superior a 20 maços-ano, independentemente de há quanto tempo pararam de fumar.

Hoje, o país não tem esse rastreamento no SUS. No início deste ano, uma pesquisa do Inca começou a analisar como implementar o sistema na rede pública. O médico epidemiologista que lidera o estudo pelo instituto, Arn Migowski, explica que colocar o rastreamento em prática é um desafio maior do que apenas oferecer o exame.

Um deles é garantir que toda a cadeia de cuidado depois do exame, da biópsia ao tratamento, seja assegurada ao paciente com diagnóstico confirmado e que isso funcione em cadeira. Além de evitar que o rastreamento impeça a adesão aos programas de abandono do tabagismo.

“A gente tem um desafio pela dimensão do país, pela complexidade da doença. Mas ainda que haja um rastreamento é preciso entender que isso não vai frear os números. Nos Estados Unidos, onde há exames de acompanhamento, 75% dos casos ainda são descobertos em estágios graves”, explica Migowski.

 

O Ministério da Saúde informou que aguarda o resultado dos estudos, mas que evidências internacionais indicam que o rastreamento da doença a populações de alto risco, pode reduzir significativamente a proporção de diagnósticos em estágios avançados — de cerca de 90% para 30% dos casos. A pesquisa, liderada pelo Inca, vai durar dois anos.





Fonte: Alagoas 24h

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