sábado, março 21, 2026
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Itamaraty terá vagas inéditas para indígenas e quilombolas; veja como candidatos estão se preparando


Palácio do Itamaraty em Brasília — Foto: Divulgação Governo Federal

As inscrições para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) terminam na próxima quarta-feira (25). Pela primeira vez na história, o edital reserva vagas específicas para candidatos indígenas e quilombolas. Ao todo, são 60 vagas para o Itamaraty, sendo duas destinadas a indígenas e uma a quilombola. Além disso, três postos são para pessoas com deficiência e 15…

As inscrições para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) terminam na próxima quarta-feira (25). Pela primeira vez na história, o edital reserva vagas específicas para candidatos indígenas e quilombolas.

Ao todo, são 60 vagas para o Itamaraty, sendo duas destinadas a indígenas e uma a quilombola. Além disso, três postos são para pessoas com deficiência e 15 a pessoas pretas e pardas. O salário inicial é de R$ 22.558.

Segundo o edital, pessoa indígena é aquela que se identifica como parte de uma coletividade indígena e é reconhecida pelos membros como tal, independentemente de viver em território indígena.

Já para os candidatos quilombolas, a definição é de pessoa pertencente a grupo étnico-racial, segundo critérios como trajetória histórica própria, dotado de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade preta ou parda.

Segundo a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, a criação das vagas é resultado de um processo articulado dentro do governo federal.

De acordo com ela, um dos fatores foi a renovação e ampliação da Lei de Cotas, que passou a prever a presença de indígenas em concursos públicos. O outro foi o programa Kuntari Katu, criado em 2024 em parceria com o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA), voltado à formação de jovens lideranças indígenas para acompanhar negociações internacionais.

“A diplomacia brasileira, que carrega esta marca simbólica e histórica de saber dialogar com tantas nações ao redor do mundo, vai escutar e aprender mais com os inúmeros povos que também constroem o nosso país”, disse a ministra ao g1.

 

Identidade que dá sentido à trajetória

No mês passado, o g1 contou a história do ex-garçom Douglas Almeida, filho de diarista e pedreiro, que tomou posse como diplomata.

Desta vez, entre os candidatos estará Eliel Camlem, de 24 anos, indígena do povo Xokleng Laklãnõ, de Santa Catarina. Filho de liderança indígena e professora, ele estudou em escola bilíngue — em português e na língua materna — dentro da própria comunidade.

Hoje, Eliel cursa o último ano de Relações Internacionais na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e estuda para o concurso há cerca de três anos.

“A diplomacia e o CACD não são espaços simples, são ambientes historicamente ocupados por uma parcela muito específica da sociedade brasileira. Entrar nesses espaços não significa se afastar da nossa identidade. Pelo contrário: é justamente essa identidade que dá sentido à trajetória”, afirma o estudante ao g1.

 

Para a ministra Sonia Guajajara, a institucionalização das vagas era necessária para que a presença indígena deixasse de ser apenas simbólica.

“As políticas de ações afirmativas que passam pela inclusão de grupos representativos da sociedade brasileira na estrutura do Estado é uma pauta democrática de um lado, mas também de melhor funcionamento estatal”, disse.

 

Diplomacia como instrumento de diálogo

O interesse pela carreira diplomática não foi imediato. Eliel conta que sentiu alguma dificuldade para se adaptar no início do curso de relações internacionais – mas, com o tempo, passou a tomar gosto e a ver a política externa como um espaço estratégico.

“Prestar o CACD é o resultado de um processo de descoberta, entender o território e também se relacionar com o mundo. A diplomacia pode ser um instrumento de diálogo, de apresentação e de construção de pontes. […] Minha identidade Xokleng influencia profundamente a forma como eu enxergo a política internacional, porque a minha formação parte do território”, afirma.

 

Para o estudante, disputar uma vaga específica representa o reconhecimento de uma desigualdade histórica. E apesar dos desafios, ele vê na presença indígena na diplomacia uma ampliação de perspectivas.

“Sempre foi e sempre será nesse necessário negociar, dialogar e resistir, defender os nossos corpos e territórios. A presença de diplomatas indígenas nas negociações internacionais pode trazer uma perspectiva ampliada sobre o diálogo e coletividade”.

 

Kuntari Katu

Eliel também participou do programa Kuntari, voltado à formação de lideranças indígenas. Sobre a origem do programa, a ministra explica que a iniciativa surgiu após a COP do Clima de 2023, em Dubai.

Na primeira edição, 30 jovens foram selecionados e 28 participaram da COP30. Para a ministra, o objetivo foi ampliar a qualificação técnica e a presença indígena nas negociações internacionais.

“Agora, o MRE terá o desafio de aproximar esta tradição da sabedoria e dos conhecimentos indígenas. Todos e todas temos a ganhar com isto. As mudanças podem parecer poucas no início. Mas prevejo mais respeito à democracia, à diversidade, à inclusão, ao compromisso com a conservação da biodiversidade e da cultura como sentido de um projeto de nação e de política para o mundo ao longo dos anos”, afirmou Guajajara ao g1.





Fonte: Alagoas 24h

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