Ana Luiza foi para Curitiba, Paraná, onde realizou uma cirurgia para retirar todo o tumor com margem de segurança, ou seja, metade da maxila e toda estrutura que estivesse por perto, para evitar que ficassem quaisquer células residuais. Isso inclui o assoalho da órbita, o céu da boca, dentes, o osso que sustenta o nariz e o que segura o olho do lado esquerdo. A cirurgia durou em torno de 13 horas. “Para a reconstrução, utilizaram a pele e um osso da minha perna (fíbula), para ‘fechar’ por dentro da cavidade oral”, conta.
Ela precisou ficar internada alguns dias na UTI até que recebeu alta. “Quando já estava em casa, o enxerto parou de perfundir sangue, ou seja, o perdi e precisei refazer com urgência. Dessa vez utilizando apenas a pele e musculatura da coxa. Mais uma cirurgia grande… Assim que me recuperei, fiz mais 30 sessões de radioterapia”, diz.
‘Só uma mãe e um pai podem entender o medo de não estar aqui pelos filhos’
Ana Luiza é mãe de Cecília, que na época do diagnóstico tinha 1 ano e seis e ainda amamentava. “Como ela ainda era muito pequena, não houve um momento em que eu ‘contei’ sobre a doença. O que eu fiz, quando comecei a me sentir mais forte emocionalmente, foi contar uma história dizendo que a mamãe precisaria passar uns dias no médico, que ela ficaria com a vovó e o papai, e, quando a mamãe estivesse melhor, voltaria. Falei que ela já era grande e não precisava mais do ‘pepe’, como chamávamos o peito. Então, toda noite antes de dormir, eu contava essa história para, na linguagem dela, começar a entender que eu precisaria ficar longe por uns dias”, lembra.
Ser mãe teve dois lados nesse momento. “Uma coisa que ouvi desde o começo foi: ‘Ainda bem que você teve ela antes, filhos nos dão muita força para lutar’. Eu até entendo o que as pessoas queriam dizer. E realmente, ser mãe me transformou completamente, sou muito mais ‘forte’ depois que me tornei mãe”, diz Ana Luiza.
Mas, também há uma outra perspectiva. “O que ninguém te diz é a dor imensurável que é olhar para seu filho e pensar que você pode não estar mais aqui amanhã, e ele vai ter que crescer com a dor de não ter sua mãe por perto. Acho que só uma mãe e um pai podem entender esse medo de ‘não estar aqui’ pelos filhos… De todas as dificuldades e desafios da doença, esse sem dúvidas foi o maior deles”, lamenta.
“Lembro de ver minha filha pela primeira vez depois do diagnóstico e só conseguir chorar compulsivamente porque não queria que ela sofresse! Ela é minha vida e sou muito grata por tê-la. Porém, isso não me fez mais ‘forte para enfrentar o câncer’. Às vezes, até acho que me fez ter mais medo em alguns momentos”, diz. “Lembro-me de acordar, no dia da cirurgia, e amamentá-la pela última vez e me despedir para passar os próximos dias no hospital… Durante esses dias, ela ficou na casa da minha sogra para que meu marido e minha mãe pudessem dormir comigo no hospital”, adiciona.
O apoio da família foi fundamental. “Meus irmãos, cunhados, pais, sogros, meu marido, todos se revezaram entre cuidar de mim e dar muito amor para minha filha para que esse momento fosse mais leve para nós duas”, afirma.
‘Mudou completamente minha maneira de ver a vida’
Felizmente, a equipe médica de Ana Luiza conseguiu remover todo o tumor e ela realizou sua última sessão de radioterapia em 20 de março de 2024. “Minha família estava me esperando com cartazes, com flores e presentes para me abraçar e comemorar comigo o fim da parte mais difícil do tratamento! Quando vi todo mundo lá, junto, caí em lágrimas e ainda caio toda vez que me lembro desse dia”, ressalta. “Seguimos acompanhando e, graças ao bom Deus, sigo sem nenhum sinal de retorno do tumor”, celebra.
A dentista acredita que a luta contra o câncer foi transformadora. “Mudou completamente minha maneira de ver a vida, de me relacionar com as pessoas, comigo mesma, com Deus, com a maternidade… Eu pude sentir na pele o medo e a dor da possibilidade de perder tudo, e me mostrou o quanto nós nos importamos com coisas tão pequenas no dia a dia. Como nos preocupamos por coisas que não merecem nossa atenção. Reforçou para mim o quanto minha família é incrível”, destaca.
Ana Luiza afirma que o seu diagnóstico a fez enxergar a maternidade com muito mais leveza. “Eu era muito preocupada em estar fazendo a coisa certa o tempo todo e quase não curtia o momento. Um exemplo disso, foi a amamentação que levei a ferro e fogo, pois ‘tinha que ser’ livre demanda até os dois anos, mesmo que aquilo estivesse me consumindo… Fim da história? Ela precisou ser desmamada abruptamente com 1 ano e meio. Ou seja, achamos que temos, mas a verdade é que não temos controle de nada”, diz.
Agora, ela busca estar presente para Cecília, hoje com 2 anos e 11 meses, da forma que pode. “Me fez sair daquele papel de mãe que quer fazer tudo conforme o ‘livro’ manda e me conectar muito mais com a minha filha e com a mãe que ela precisa que eu seja”, finaliza.



