segunda-feira, maio 25, 2026
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Cardiomiopatia hipertrófica pode ser genética ou agravada por anabolizantes; entenda doença citada em morte de fisiculturista


Na doença, parte do músculo cardíaco cresce além do esperado. A parede mais espessa deixa o coração rígido, reduz o espaço interno onde o sangue se acumula antes de ser bombeado.

O cirurgião cardiovascular Ricardo Katayose, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que a parede do ventrículo tem uma espessura considerada normal até cerca de um centímetro. A partir de certo ponto, o músculo passa a ser classificado como hipertrófico — e, em casos extremos, pode ultrapassar os 30 milímetros.

“A parede vai ficando mais grossa e a cavidade de dentro acaba ficando menor. Isso dificulta o enchimento e o funcionamento normal do coração”, afirma.

Segundo o cardiologista Elzo Mattar, diretor do departamento de hipertensão arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto, a doença pode ter origem genética ou ser adquirida ao longo da vida —inclusive com participação do uso de esteroides anabolizantes.

Na forma genética, o espessamento costuma ser assimétrico: uma das paredes do coração se desenvolve de maneira desproporcional, sem causa aparente, enquanto as demais permanecem normais.

De padrão autossômico dominante, ela tem 50% de chance de ser transmitida de pai para filho e é considerada uma das principais causas de morte súbita em pessoas com menos de 35 anos no Brasil e no mundo.

O esforço físico como gatilho

Em muitos casos, a cardiomiopatia hipertrófica permanece silenciosa por anos e só se manifesta diante de uma sobrecarga maior do coração.

Segundo Mattar, quando a pessoa se exercita e o coração acelera, esse aumento dos batimentos pode funcionar como gatilho para uma arritmia maligna —como a taquicardia ventricular ou a fibrilação ventricular, ritmos rápidos e descoordenados que impedem o bombeamento normal do sangue.

“O coração entra em colapso e deixa de conseguir manter o fluxo sanguíneo adequado para o cérebro e outros órgãos. Se não houver reversão rápida, o quadro pode evoluir para parada cardiorrespiratória e morte”, afirma.

Katayose acrescenta que, em parte dos casos, a doença passa despercebida até o desfecho mais grave.

“Algumas pessoas só vão descobrir por meio da morte súbita”, diz.

Por esse risco, segundo ele, pacientes diagnosticados com a condição costumam não ser liberados para o esporte de alto rendimento. Quando aparecem, os sintomas mais comuns incluem falta de ar, dor no peito, palpitações, tontura e desmaios.

Como os anabolizantes afetam o coração

Além da forma genética, Mattar alerta que a cardiomiopatia também pode ser adquirida —e que o uso de esteroides anabolizantes está entre os fatores associados.

Segundo o cardiologista, essas substâncias elevam a pressão arterial e aumentam a carga de trabalho do coração, que passa a bater contra uma resistência maior.

“O coração passa a trabalhar contra uma resistência maior e começa a sofrer hipertrofia. Só que esse crescimento acontece de forma desorganizada”, explica.

 

Com o avanço rápido da parede cardíaca, a irrigação do próprio músculo não consegue acompanhar o crescimento do tecido.

“O sangue chega ao músculo cardíaco por pequenas ramificações das coronárias. Quando a parede cresce muito rápido, a circulação não acompanha. Algumas células começam a morrer, gerando áreas de necrose e fibrose”, diz.

Essas pequenas cicatrizes no músculo funcionam como um terreno fértil para o surgimento de arritmias graves.

O especialista lembra ainda que os esteroides podem danificar a microcirculação das coronárias e elevar o risco de formação súbita de coágulos.

“Um usuário pode aparentemente ter uma vida normal e, de uma hora para outra, desenvolver uma trombose coronariana aguda, evoluir para um infarto e sofrer morte súbita”, explica.

 

Morre Gabriel Ganley, fisiculturista e influenciador, aos 22 anos — Foto: Reprodução/TV Globo

Nas redes sociais, Gabriel Ganley também havia relatado o uso de insulina com fins estéticos e de ganho muscular.

Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que a insulina age de forma diferente dos esteroides e não causa diretamente a cardiomiopatia hipertrófica. Ainda assim, pode ampliar os riscos quando usada sem indicação médica, sobretudo combinada a outras substâncias.

Segundo o diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Clayton Macedo, fisiculturistas recorrem ao hormônio porque ele favorece a entrada de nutrientes nas células e estimula a síntese de proteína muscular. O problema é que, em pessoas sem diabetes, o uso pode provocar hipoglicemia grave —a queda perigosa dos níveis de açúcar no sangue.

Episódios severos de hipoglicemia, afirma Macedo, podem causar confusão mental, convulsões, coma e até morte.

A combinação de insulina, anabolizantes, estimulantes e diuréticos, acrescenta, aumenta o estresse cardiovascular e favorece arritmias, desidratação e alterações metabólicas que sobrecarregam o coração.

Diagnóstico e acompanhamento

O diagnóstico da cardiomiopatia hipertrófica costuma ser feito por exames como ecocardiograma, eletrocardiograma e ressonância magnética cardíaca.

Como a forma genética é hereditária, Katayose reforça que familiares próximos também devem ser avaliados após a confirmação do diagnóstico, em razão do padrão de transmissão da doença.

O tratamento varia conforme a gravidade do quadro. Pode incluir medicamentos, como os betabloqueadores, restrição de exercícios de alta intensidade e, em casos selecionados, o implante de um cardioversor-desfibrilador implantável (CDI) —dispositivo semelhante a um marca-passo, capaz de reverter arritmias fatais com um choque elétrico.

No caso de Gabriel Ganley, a causa da morte ainda é investigada oficialmenteO atestado de óbito menciona cardiomiopatia hipertrófica associada a edema pulmonar e insuficiência cardíaca congestiva.





Fonte: Alagoas 24h

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