A terapeuta ocupacional Silvia Ueno, de Ribeirão Preto (SP), encontrou uma forma diferente de ajudar famílias no processo de desfralde de crianças: a ‘Fada do Cocô’. A personagem criada por ela já soma 354 mil seguidores nas redes sociais e tem o objetivo de orientar mamães e papais sobre o momento correto de tirar a…
A terapeuta ocupacional Silvia Ueno, de Ribeirão Preto (SP), encontrou uma forma diferente de ajudar famílias no processo de desfralde de crianças: a ‘Fada do Cocô’.
A personagem criada por ela já soma 354 mil seguidores nas redes sociais e tem o objetivo de orientar mamães e papais sobre o momento correto de tirar a fralda dos filhos.
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O projeto envolve músicas com pegada rock and roll, o gênero favorito da terapeuta, livros infantis e ferramentas interativas, como adesivos, para ensinar como funciona o intestino.
O trabalho da fadinha é combater o trauma e o medo que muitas crianças desenvolvem na hora de usar o vaso sanitário.
Com a alta procura e o sucesso do método, Silvia deixou os atendimentos clínicos presenciais tradicionais para se dedicar integralmente ao mundo digital. Ela agora oferece orientações gratuitas por mensagens e foca na venda de materiais educativos para democratizar o acesso à informação.
“Tem muita gente que acha que desfralde é tirar a fralda e ficar levando a criança para o banheiro, mas não é. A criança tem que se interessar, tem que aprender sobre o próprio corpo. E é aí que entra a fadinha. Foi a melhor ideia que eu tive na minha vida”.
Apelido de mães virou fantasia 🧚♀️
Ao g1, Silvia contou que a personagem surgiu de forma despretensiosa, como um apelido carinhoso dado por mães de pacientes.
Na época, a terapeuta tratava recém-nascidos que sofriam com cólicas e dificuldades de evacuação. As mulheres notaram que o método funcionava rápido e começaram a chamá-la de fada.
Foi então que Silvia decidiu transformar a brincadeira em realidade para tratar crianças mais velhas que sofriam com constipação severa. Ela comprou tecidos e montou um figurino completo para encarnar a personagem.
A roupa inclui um corselete, saia, asinhas marrons e tiara em formato de cocô.
“Foi sucesso absoluto desde o primeiro ‘pacientinho’. A tia Silvia de jaleco tinha um poder até aqui. A Fada do Cocô consegue coisas que eu demorava meses para conseguir em um tratamento”.
Para ajudar os pequenos a enfrentarem o receio da dor, ela também criou a ‘varinha da coragem’ e ensina que é preciso agir e tentar usar o banheiro, mesmo quando o medo aparece.
“Eu explico para elas que medo não é a gente não ter coragem. É a gente fazer as coisas apesar do medo. A fadinha virou uma grande aliada”.
Rock and roll e livros infantis 🎸
A ideia de expandir o projeto veio quando Silvia não conseguiu mais dar conta da demanda presencial. Ela firmou uma parceria o marido, que é produtor musical, e começou a lançar canções no estilo rock and roll.
A música ‘Como é que faz cocô’ ensina a criança a agachar, postura considerada ideal para o funcionamento do intestino. Já a faixa ‘Todo mundo faz cocô’ busca quebrar o tabu sobre o tema, ensinando para as crianças que até os animais mais fofinhos fazem cocô.
Para diminuir o tempo de exposição dos pequenos às telas de celulares, a terapeuta ainda escreveu dois livros: ‘A Fada Diferente’ e ‘Clube da Fada’, que narram histórias de superação infantil no uso do banheiro.
“Os livros têm um poder maior sobre a criança. Ela quer ver as fadinhas, está ali na biblioteca dela, é só pegar e levar para qualquer lugar. Não tem a questão da tela”, avalia a terapeuta.
O universo da Fada do Cocô ganhou ainda ferramentas visuais e interativas. A criadora desenvolveu adesivos para guiar a criança até o banheiro e ilustrações lúdicas, como o personagem ‘Cocozinho’ e a ‘piscina dos cocôs’, itens que ajudam a manter o foco e o interesse dos pequenos até chegarem ao vaso sanitário.
“Ser desenhada por criança é uma coisa que tinha que ser colocada no currículo das pessoas, para mim, é uma honra”.
Fim da clínica e tira-dúvidas na internet 📱
Hoje em dia, a terapeuta atende um público variado que enfrenta bloqueios e problemas fisiológicos com a evacuação. Os casos relatados envolvem desde bebês típicos até adolescentes de 13 anos que ainda pedem a fralda para o banheiro.
Silvia alerta que o trauma psicológico no vaso sanitário é um problema democrático e comum na infância.
Um único episódio de dor ou um simples deslize na alimentação durante o fim de semana podem desencadear o bloqueio.
Para conseguir ajudar mais lares simultaneamente, a Fada do Cocô encerrou as consultas em consultório e focou na produção de conteúdo gratuito em massa. Ela chega a responder cerca de 50 famílias por dia nas redes sociais.
“É impossível dar conta de ficar 50 minutos com a mesma família e fazer toda aquela triagem. Mas eu tiro as dúvidas pontuais pelo Instagram, é um tempo que eu gasto feliz”.
Método em casa e artigo científico 🚽
Silvia conta que a imersão no tema da fisiologia infantil ganhou ainda mais força com a experiência da maternidade. Após engravidar do filho Tomás, hoje com 7 anos, a terapeuta começou a pesquisar a fundo e decidiu aplicar a prática da higiene natural.
O método ensinado por ela consiste em observar os sinais corporais do bebê e posicioná-lo no vaso sanitário desde recém-nascido. O filho da profissional começou a usar o banheiro aos 30 dias de vida, apoiado de forma segura no colo dos pais.
O processo fluiu com naturalidade na residência e o menino concluiu o desfralde completo com apenas 11 meses de idade. A vivência prática dentro de casa motivou Silvia a estruturar os dados e publicar um artigo científico sobre o tema em 2022.
“O Tomás aprendeu a falar cocô, pegava a gente pela mão e levava até o banheiro. Eu falei ‘gente, eu preciso divulgar isso’. E escrevi o artigo”.
O estudo publicado em meio à pandemia abriu portas, gerou confiança entre colegas pediatras e impulsionou o trabalho na internet. A partir dessa validação, ela popularizou a técnica e mudou definitivamente o foco da própria carreira.
“Depois da publicação desse artigo é que eu consegui conquistar a confiança de muitos colegas profissionais. A coisa começou a andar muito mais”.
Visual marrom e paixão pela profissão 🤎
A caracterização visual da Fada do Cocô foi pensada de forma estratégica para gerar uma identificação imediata e positiva com o público infantil. Silvia aposta no figurino totalmente marrom, fugindo do estereótipo clássico de fadas com roupas brilhantes e coloridas.
A estratégia funciona porque, segundo a especialista, a grande maioria das crianças pequenas desenvolve um apego natural pelos próprio cocô e a fantasia transforma medo em pura diversão.
Para manter a magia viva fora dos vídeos e das telas, a profissional inventou uma desculpa convincente para o dia a dia e avisa os pacientes que anda pelas ruas disfarçada, como os grandes super-heróis dos quadrinhos.
“Eu falo ‘ó, é que eu estou à paisana, é que nem o Homem-Aranha, eu não posso sair de fada por aí’. E elas acreditam, é a coisa mais linda”a.
Atualmente, a terapeuta paulista comemora os resultados diários do projeto literário e musical, acompanhando a evolução de quadros graves de constipação. A maior recompensa do trabalho chega todos os dias pela tela do celular.
“Minha alegria diária é receber foto de cocô no vaso, mensagem de voz falando ‘fadinha, eu consegui fazer cocô sem dor’. Quando vejo que a personagem ajuda os casos graves, vejo que foi a melhor ideia que tive”.



