segunda-feira, junho 15, 2026
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Auditora vira ativista após irmão viciado em bets morrer endividado


“Só descobri que meu irmão estava viciado em apostas quando ele morreu”, lamentou a advogada e auditora do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA), Juliana Prates. Ela perdeu o irmão, o também auditor fiscal do órgão, Otacílio Prates, em dezembro do ano passado, e desde então tem se dedicado ao ativismo contra as…

“Só descobri que meu irmão estava viciado em apostas quando ele morreu”, lamentou a advogada e auditora do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA), Juliana Prates. Ela perdeu o irmão, o também auditor fiscal do órgão, Otacílio Prates, em dezembro do ano passado, e desde então tem se dedicado ao ativismo contra as apostas online, conhecidas como “bets”.

Otacílio começou a apostar em 2023 e, ao longo de quase dois anos, adquiriu uma dívida de aproximadamente R$ 1,5 milhão.

O contexto de ludopatia só foi descoberto dias antes do Natal, quando Juliana encontrou uma carta deixada pelo irmão, onde ele dizia que tiraria a própria vida. Otacílio tinha 46 anos e deixou a esposa e uma filha de seis anos.

⚠️ A ludopatia é um transtorno caracterizado pelo desejo incontrolável e compulsivo de apostar. É uma dependência comportamental similar ao vício em substâncias, reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e com alto impacto na saúde mental.

Dívida milionária
Uma pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) apontou que, em 2025, 19% dos usuários de internet no Brasil fizeram apostas online.

Os familiares e amigos de Otacílio não sabiam que ele fazia parte dessa porcentagem. A irmã do auditor foi informada que ele estava com problemas financeiros, que foram justificados como investimentos frustrados na bolsa de valores e em criptomoeadas.

Segundo Juliana, o irmão chegou a ser internado por questões psicológicas após apresentar um surto, mas em nenhum momento contou sobre o vício em apostas online. Após a internação, ele tirou a própria vida.

“Na carta que deixou, ele dizia que havia perdido o sentido da vida, que havia perdido todo o dinheiro. Ele deixou todas as senhas e quando abri o celular, vi várias contas de bets abertas. Só naquele dia, ele tinha apostado R$ 109 mil”, contou.

Após o trauma, Juliana decidiu usar a perda familiar para alertar outras pessoas sobre o perigo das apostas online. Um dos vídeos da advogada viralizou nas redes sociais, teve mais de 15 milhões de visualizações e foi repostado pela atriz Luana Piovanni.

Depois disso, desconhecidos passaram a procurá-la para contar as próprias histórias – algumas de esperança, outras parecidas com a da sua família.

“Saí do luto para a luta, porque não quero que ninguém passe por isso”, afirmou.

Vício silencioso
O psicólogo Erich Rapold, especialista em Terapia Comportamental Clínica, explica que, por ser uma atividade legalizada, o vício nas apostas tem um estigma diferente do vício em drogas, por exemplo.

“As apostas são tidas como um entretenimento legal, ao alcance de qualquer um. O ludopata pode olhar para as outras pessoas e pensar: ‘se todo mundo que aposta está bem, então o problema sou eu’”, explicou.
Além disso, a ludopatia é silenciosa e invisível: o dependente pode simplesmente apostar no sofá de casa, enquanto assiste televisão com a família, sem que ninguém perceba. Apesar disso, alguns sinais podem ser observados por familiares e amigos, como por exemplo:

uso exagerado do celular, inclusive durante a madrugada;
irritação ao ter o uso interrompido;
notificações frequentes de aplicativos de apostas;
grande oscilação de humor entre felicidade e irritação – normalmente associado a ganhos e perdas;
isolamento;
pedidos de ajuda financeira com explicações vagas.

Outra característica apontada pelo psicólogo é a “perseguição do prejuízo”, que é seguir apostando depois de perder muito dinheiro, porque vencer significaria quitar a dívida.

“Essas plataformas tendem a manter a pessoa apostando justamente quando ela precisa parar”, afirmou.
Para a auditora Juliana Prates, esse é um ponto de atenção gravíssimo. Ela acredita que os perfis dos jogadores deveriam ser analisados e, com base nisso, as plataformas deveriam determinar um limite máximo de apostas. “Meu irmão fez vários jogos por minuto, a plataforma deveria saber que ele não era um jogador responsável”, disse.

Sinais de atenção
“O que difere o hábito do transtorno não é a frequência, nem o valor apostado isoladamente. É o papel, a função que a aposta passou a ter na vida da pessoa”, explica o psicólogo.

Uma das formas dos jogadores auto avaliarem se as apostas se tornaram um problema, é fazer as seguintes perguntas para si mesmo:

você aposta valores cada vez mais altos para sentir a mesma emoção que sentia quando começou a apostar?
você fica irritado, ansioso ou inquieto quando tenta parar?
você aposta para fugir de problemas ou aliviar a ansiedade?
depois de perder, você volta a apostar tentando recuperar o prejuízo?
você já mentiu sobre quanto ganhou ou perdeu?
você já comprometeu dinheiro que tinha outra finalidade para apostar?
a aposta já prejudicou o trabalhou e/ou os estudos?

De acordo com o psicólogo, quando o jogador se encaixa em quatro dessas situações ou mais, no período de um ano, é considerado transtorno. Nessas situações, o ideal é buscar tratamento, que é feito de forma multidisciplinar, com psicólogo, psiquiatra e, muitas vezes, grupos de apoio.

📞 Na capital baiana, o Grupo Salvador Jogadores Anônimos, atende pessoas com vícios em jogos há 18 anos. As reuniões presenciais acontecem todas terças e quintas, no bairro da Pituba. O primeiro atendimento é feito através do telefone (71) 98624-0512.

Durante o tratamento, o profissional vai ajudar o portador do transtorno a entender de onde vem o vício e construir mecanismos para superá-lo. Além disso, é preciso dar suporte à família, que geralmente é impactada emocional, psicológica e financeiramente pela ludopatia.

 





Fonte: Alagoas 24h

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